Toda pessoa que trabalha responde a alguém. E quase toda pessoa que trabalha, uma hora ou outra, vira o alguém a quem outros respondem. Pai, mãe, líder de equipe, dono de negócio, coordenador de voluntários na igreja: a partir do momento em que o seu "sim" ou "não" pesa sobre o dia de outra pessoa, você é gestor ou líder de alguém, mesmo que ninguém te chame assim.
A Bíblia coloca dois gestores lado a lado. Não é teoria: em cena, com ordens ditas em voz alta e resultados que dá para medir. Um se chama Faraó que está em Êxodo 5, Israel como escravo no Egito. O outro se chama Jetro, sogro de Moisés, já no deserto. E a distância entre eles é a distância entre destruir e construir.
O primeiro gestor: Faraó
O povo de Israel está escravo no Egito, e o trabalho era fazer tijolos. Até certo ponto da história, eles recebem a palha, a matéria-prima, e produziam. Aí Moisés aparece pedindo folga para o povo adorar a Deus, e a resposta do Faraó é uma aula de gestão pelo medo.
[6] No mesmo dia, o faraó deu a seguinte ordem aos feitores e capatazes responsáveis pelo povo: [7] "Não forneçam mais palha ao povo para fazer tijolos, como antes. Eles que tratem de ir e ajuntar a palha! [8] Exijam deles a mesma quantidade de tijolos que já faziam antes; não reduzam a cota. São preguiçosos; por isso, estão clamando: 'Deixa-nos oferecer sacrifícios ao nosso Deus'. [9] Aumentem a carga de trabalho dessa gente para que cumpram as suas tarefas e não deem atenção a mentiras." · Êxodo 5:6-9, NVI - Nova Versão Internacional
Pare em cada movimento dessa ordem, porque cada um tem nome hoje.
Tira o recurso, mantém a meta. "Não forneçam mais palha" e, na mesma frase, "exijam a mesma quantidade de tijolos". Corta a matéria-prima e não corta o resultado esperado. Todo trabalhador conhece essa. Menos gente, menos verba, menos prazo, e a entrega continua a mesma, ou maior. Faraó inventou isso, e sua patente continua por todo lado.
Chama de preguiça o que é falta de condição. "São preguiçosos." Repare quando ele diz isso: exatamente no momento em que acabou de tirar a palha. O povo vai render menos porque agora precisa catar a própria palha e fazer os tijolos, e a queda de rendimento já vem rotulada como defeito de caráter. Isso é o mecanismo que hoje chamamos de assédio moral com séculos de antecedência. A pessoa é sobrecarregada e depois culpada pela consequência da própria sobrecarga.
Aumenta a carga para calar o clamor a Deus. Essa é a mais reveladora. "Aumentem a carga de trabalho dessa gente para que... não deem atenção a mentiras."
A "mentira" é o pedido do povo para adorar a Deus. A estratégia do Faraó é clara: encha tanto o dia deles que não sobre fôlego para pensar em mais nada. O excesso de trabalho aqui não é acidente de má gestão. É ferramenta. Gente exausta não reivindica, não questiona, não levanta a cabeça. Um povo esgotado é um povo de fácil manipulação, controlável.
Esse é o modelo Faraó. Ele funciona, no curto prazo. Entrega tijolo. E vai sugando a energia do povo até não sobrar ninguém inteiro.
O peso tem um nome
Não é força de expressão dizer que o sistema do Faraó faz sugar a pessoa. O próprio texto de Êxodo usa uma palavra para a carga imposta ao povo:
(Êxodo 1:11; 5:4). É a palavra do peso que esmaga de cima.
Guarde essa imagem, do peso que vem de cima e dobra quem está embaixo, porque o segundo gestor vai usar exatamente a imagem oposta.
O segundo gestor: Jetro
Vira a página alguns capítulos. Israel já saiu do Egito. Moisés agora é o líder, e faz uma coisa que parece dedicação exemplar: julga o povo sozinho, do amanhecer ao anoitecer, todos os dias, atendendo fila. É trabalhador, é disponível, é incansável. É o funcionário que todo chefe diz querer.
Jetro, o sogro de Moisés, chega, observa um dia inteiro daquilo, e não elogia. Ele fica preocupado.
[17] O sogro de Moisés respondeu: - O que você está fazendo não é bom. [18] Você e o seu povo ficarão completamente esgotados, pois essa tarefa é pesada demais. Você não pode executá‑la sozinho. · Êxodo 18:17-18
O hebraico do que Jetro diz é forte. Ele usa
Uma construção que dobra o verbo para intensificar: "murchando, você vai murchar". É a imagem de uma folha que resseca e cai, de uma planta que definha. Jetro olha para o genro trabalhando com toda a boa vontade do mundo e diz: do jeito que você vai, você vai secar. Você e todo mundo que depende de você.
Aqui está o contraste inteiro da peça, numa palavra contra a outra. Faraó impõe sivlot, o peso que esmaga de cima. Jetro alerta contra navol, o murchar de quem foi deixado sozinho embaixo do peso. Um cria o fardo. O outro enxerga a folha secando e age antes que ela caia.
E repare no que Jetro faz depois de diagnosticar. Ele não manda Moisés "se esforçar mais" nem "ter mais fé". Ele reestrutura o trabalho: divide a carga, nomeia outros para julgar as causas menores, deixa para Moisés só o que de fato exige Moisés. A solução de Jetro é organizacional, concreta, quase administrativa. Cuidar de gente, no texto, não foi um sentimento bonito. Foi um redesenho de processo que devolveu o fôlego a Moisés.
Problema vs Solução: O que vem de cima me abala
Repare em quem tem poder na cena, nos dois casos.
O problema aparece embaixo, em quem faz o tijolo, em quem espera na fila. Mas a solução, ou a destruição, mora em cima, em quem tem poder sobre o recurso: Faraó decide sobre a palha; e é a Moisés, que está em cima, que Jetro fala, porque é Moisés quem pode redistribuir a carga. O trabalhador embaixo raramente consegue mudar o próprio peso. Quem muda é quem está por cima dele.
É por isso que este estudo é sobre você que lidera, mesmo que sua liderança seja pequena. A pessoa embaixo de você não controla a palha. Você controla. O que ela vive depende menos do esforço dela e mais da ordem que sai da sua boca.
Então a pergunta do dia não é "você trabalha muito?". É outra:
O que a sua ordem faz com quem está embaixo dela?
Você tira a palha e mantém a mesma produção? Chama de preguiça o cansaço que você mesmo causou? Enche o dia dos outros para que não sobre fôlego para reclamarem? Ou você é o líder ou gestor que observa um dia inteiro de trabalho, percebe a folha começando a secar, e tem a coragem de dizer "assim não dá, vamos melhorar isto"?
Uma ressalva necessária
Faraó não é só um chefe ruim de que a gente se livra apontando o dedo. É um espelho. A parte incômoda de Êxodo 5 é que qualquer um de nós, com poder e sob pressão, escorrega para o modelo Faraó sem perceber. A meta aperta, o recurso encolhe, e a saída mais fácil é empurrar o peso para baixo e chamar de compromisso. Ninguém acorda querendo ser Faraó. Vira-se Faraó por omissão, é um tijolo de cada vez.
Jetro, por outro lado, precisou de uma coisa que o Faraó não tinha: a disposição de olhar, ajudar e dimensionar o trabalho. Ele passou um dia inteiro observando antes de falar. Cuidar de quem está embaixo começa por aí, por reparar, se preocupar. O gestor que não olha não enxerga a folha secando até ela já estar no chão caída.
Amanhã
Vimos o gestor que minimiza as dores, Faraó, e o gestor que serve, Jetro. Amanhã, o clamor que sobe de baixo: o povo grita de fome no meio da própria obra, e a pergunta é o que o líder faz com a reclamação que chega até ele. Neemias (Nechemyah) 5.
Pergunta de hoje
Pense em uma pessoa que responde a você, no trabalho, em casa, na igreja, onde for. A última ordem sua que pesou sobre o dia dela: foi palha que você deu, ou palha que você tirou? Se não souber responder, talvez seja hora de fazer o que Jetro fez antes de falar. Observar um dia inteiro e pensar em como construir.
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